jan 25 2008
A força do pensamento (Dráuzio Varella)
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Mais uma vez posto neste espaço um texto do Dr. Dráuzio Varella. Desta vez optei por publicar em duas seções simultâneas, ”Espaço ecumênico” e “Zuniversitas”, porque tem tudo a ver com crença e ciência.
Trata-se de um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 09 de junho de 2007.
“A montanha ir até Maomé é tão improvável quanto o Everest surgir na minha janela”
Veja este e outros artigos do mesmo autor em: http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/artigos_indice.asp
Bom proveito !
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Em 40 anos, nunca vi alguém se curar com a força do pensamento. Cometi a
asneira de pronunciar essa frase numa entrevista e enfrentei a ira dos que
pensam de maneira oposta.
A palavra ira, neste contexto, deve ser levada ao pé da letra. Entre os
revoltados, não faltou quem me chamasse de organicista, incrédulo,
prepotente, defensor de interesses corporativistas e até de imbecil. Dada a
riqueza dos adjetivos a mim dedicados, vou explicar o que penso a respeito
desse tema.
Antes de tudo, deixo claro que não estou em desacordo com a metáfora bíblica
de que a fé remove montanhas. Não faltam exemplos de pessoas em situações
adversas que, por meio da força de vontade e do empenho em busca de um
ideal, realizaram proezas inimagináveis. Concordo, também, que a vontade de
viver é de importância decisiva na luta pela sobrevivência. Sem ela, sequer
levantamos da cama pela manhã.
Nos anos 1970, tive um paciente recém-casado, portador de câncer de
testículo disseminado nos pulmões. Haviam acabado de lançar a cisplatina,
nos EUA, quimioterápico que revolucionaria o tratamento desse tipo de tumor.
Com dificuldade extrema, o rapaz conseguiu dinheiro para a passagem e bateu
na porta do Memorial Hospital de Nova York, sozinho, sem falar inglês, com
200 dólares no bolso para custear estadia e um tratamento que não sairia por
menos de 20 mil.
Voltou para o Brasil três meses mais tarde, curado. Poderíamos dizer que
outro em seu lugar, sem a mesma determinação, estaria vivo até hoje? Lógico
que não. A fé pode remover montanhas, como reza a metáfora.
Mas, aqui se insere a questão do tal pensamento positivo. Os que se
revoltaram por ocasião da entrevista, baseiam-se em exemplos como esse para
defender a teoria de que eflúvios cerebrais benfazejos têm o dom de curar
enfermidades.
E é nesse ponto que nossas convicções se tornam inconciliáveis. Para mim, se
Maomé não for à montanha, a montanha vir a Maomé é tão improvável quanto o
Everest aparecer na janela da minha casa.
Insisti com o rapaz para se tratar em Nova York, porque não havia nem há um
só caso descrito na literatura de desaparecimento espontâneo de metástases
pulmonares de câncer de testículo. Todos os que morreram da doença antes do
advento da quimioterapia seriam homens pulsilânimes, desprovidos do desejo
de viver demonstrado por meu paciente, portanto ineptos para subjugar suas
metástases às custas da positividade do pensamento?
A fé nas propriedades curativas da assim chamada energia mental tem raízes
seculares. Quantos católicos foram canonizados porque lhes foi atribuído o
poder espiritual de curar cegueiras, paraplegias, hanseníase e até
esterilidade feminina? Quantos pastores evangélicos convencem milhões de
fiéis a pagar-lhes os dízimos ao realizar façanhas semelhantes diante das
câmeras de TV?
Por que a energia emanada do pensamento positivo serve apenas para curar
doenças, jamais para fazer um carro andar dez metros ou um avião levantar
vôo sem combustível?
Esse tipo de crendice não me incomodaria se não tivesse um lado perverso: o
de atribuir ao doente a culpa duplicada por haver contraído uma doença
incurável e por ser incapaz de curá-la depois de tê-la adquirido.
Responsabilizar enfermos pelos males que os afligem vai muito além de fazê-
lo nos casos de câncer de pulmão em fumantes ou de infartos do miocárdio em
obesos sedentários.
No passado, a hanseníase foi considerada apanágio dos ímpios; a tuberculose,
conseqüência da vida desregrada; a AIDS, maldição divina para castigar os
promíscuos. Coube à ciência demonstrar que duas bactérias e um vírus
indiferentes às virtudes dos hospedeiros eram os agentes etiológicos dessas
enfermidades.
A crença na cura pela mente e a ignorância a respeito das causas de
patologias complexas como o câncer, por exemplo, são fontes inesgotáveis de
preconceitos contra os que sofrem delas. Cansei de ver mulheres com câncer
de mama, mortificadas por acreditar que o nódulo maligno surgiu por lidarem
mal com os problemas emocionais. E de ouvir familiares recriminarem a falta
de coragem para reagir, em casos de pacientes enfraquecidos a ponto de não
parar em pé.
Acreditar na força milagrosa do pensamento pode servir ao sonho humano de
dominar a morte. Mas, atribuir a ela tal poder é um desrespeito aos doentes
graves e à memória dos que já se foram.

