mai 19 2008
Ciências, arte e acaso
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Ao lado de Armando Nogueira e do falecido João Saldanha, Tostão é um dos raros casos neste país de cronista que consegue escrever sobre futebol com criatividade e arte. Publico agora seu texto “Ciência, arte e acaso“, destacando as seguintes passagens: 
“Grande parte da vida se passa nas entrelinhas, na subjetividade e no que não foi ou que não pode ser dito”.
“Na Europa se jogava futebol de prosa e, no Brasil, futebol de poesia” (Pasolini).
“Jogadores europeus são equilibrados, brasileiros são equilibristas. Europeus são donos do campo, pela disciplina tática e ocupação dos espaços, brasileiros são os donos do jogo, pela improvisação e intimidade com a bola” (Chico Buarque)
CIÊNCIA, ARTE E ACASO - Jornal O POVO, domingo, 18/05/2008 - ![]()
Nesta semana, em uma caminhada pela cidade, na tentativa de fortalecer a corpo e embelezar a alma, um leitor me disse, em educada crítica, que tenho valorizado demais o acaso. É verdade. Mas isso não diminuiu a importância que dou à ciência, à técnica e à arte do futebol. Talvez essa preocupação seja conseqüência também do tempo, de quem passou dos 60 anos. Ficamos mais vulneráveis às armadilhas do acaso.
Acaso não é destino. Nada está escrito. A desculpa do destino serve de consolo para enganar os relapsos e incompetentes e para fugir da culpa. Acaso não tem nada a ver também com o além nem com a vontade dos deuses do futebol. Acaso não é o que não possa ser explicado hoje pela ciência e que será amanhã conhecido. Esse desconhecimento serve de estímulo para a ciência aprofundar os estudos e para os racionais cientistas diminuírem a prepotência de que já sabem tudo.
Os iluministas achavam que a razão era o único caminho para atingir à sabedoria, que a natureza e todas as coisas tinham a mesma lógica da matemática e que, somente pela razão e conhecimento, os homens seriam melhores e mais felizes. Não foi o que aconteceu. Pelo contrário. Além disso, perceberam que grande parte da vida se passa nas entrelinhas, na subjetividade e no que não foi ou que não pode ser dito.
O acaso a que me refiro e valorizo é o que não tem nada de especial, mas que não foi planejado nem previsto, e que pode mudar nossas vidas, a história de um jogo de futebol, de um país e até o destino da humanidade. Com freqüência, não há sincronia entre o resultado e a história de um jogo de futebol. Dezenas de imprevistos, como uma bola desviada, mudam tudo. Depois da partida, na nossa racionalidade e com bons argumentos, tentamos dar uma explicação convincente para os fatos.
“Tudo parece fácil e concatenado quando ganhamos; tudo parece disperso e difícil quando perdemos. No entanto, é por tão pouco que se ganha ou se perde. O apito final estabiliza violentamente aquilo que, no transcorrer do jogo, parece um rio catastrófico de mil possibilidades, a nos arrastar com ele.” (Aspectos trágicos do futebol - Nuno Ramos).
Em 1971, o cineasta Pasolini escreveu que na Europa se jogava futebol de prosa e, no Brasil, futebol de poesia. Tempos atrás, Chico Buarque chamou os jogadores europeus de equilibrados e os brasileiros de equilibristas. Disse ainda que os europeus eram os donos do campo, pela disciplina tática e ocupação dos espaços, e os brasileiros eram donos do jogo, pela improvisação e intimidade com a bola. Geniais.
Hoje, está quase tudo igual. Por causa da ciência do esporte e do mundo globalizado, o futebol evoluiu, para o bem e para o mal, e se transformou em um jogo excessivamente técnico (tecnicista), tático, veloz, físico e ensaiado. O futebol e a vida continuam prazerosos e bonitos, porque, mesmo em situações previsíveis, comuns e repetitivas, haverá sempre o acaso e um artista, um craque, para transgredir e reinventar a história.


