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mai 19 2008

Ciências, arte e acaso

Published by zeducando2 under Artigos e textos

Ao lado de Armando Nogueira e do falecido João Saldanha, Tostão é um dos raros casos neste país de cronista que consegue escrever sobre futebol com criatividade e arte. Publico agora seu texto “Ciência, arte e acaso“, destacando as seguintes passagens:

“Grande parte da vida se passa nas entrelinhas, na subjetividade e no que não foi ou que não pode ser dito”.

“Na Europa se jogava futebol de prosa e, no Brasil, futebol de poesia” (Pasolini).

“Jogadores europeus são equilibrados, brasileiros são equilibristas. Europeus são donos do campo, pela disciplina tática e ocupação dos espaços, brasileiros são os donos do jogo, pela improvisação e intimidade com a bola” (Chico Buarque)

 

CIÊNCIA, ARTE E ACASO  -  Jornal O POVO, domingo, 18/05/2008 - 8)
Nesta semana, em uma caminhada pela cidade, na tentativa de fortalecer a corpo e embelezar a alma, um leitor me disse, em educada crítica, que tenho valorizado demais o acaso. É verdade. Mas isso não diminuiu a importância que dou à ciência, à técnica e à arte do futebol. Talvez essa preocupação seja conseqüência também do tempo, de quem passou dos 60 anos. Ficamos mais vulneráveis às armadilhas do acaso.

Acaso não é destino. Nada está escrito. A desculpa do destino serve de consolo para enganar os relapsos e incompetentes e para fugir da culpa. Acaso não tem nada a ver também com o além nem com a vontade dos deuses do futebol. Acaso não é o que não possa ser explicado hoje pela ciência e que será amanhã conhecido. Esse desconhecimento serve de estímulo para a ciência aprofundar os estudos e para os racionais cientistas diminuírem a prepotência de que já sabem tudo.

Os iluministas achavam que a razão era o único caminho para atingir à sabedoria, que a natureza e todas as coisas tinham a mesma lógica da matemática e que, somente pela razão e conhecimento, os homens seriam melhores e mais felizes. Não foi o que aconteceu. Pelo contrário. Além disso, perceberam que grande parte da vida se passa nas entrelinhas, na subjetividade e no que não foi ou que não pode ser dito.

O acaso a que me refiro e valorizo é o que não tem nada de especial, mas que não foi planejado nem previsto, e que pode mudar nossas vidas, a história de um jogo de futebol, de um país e até o destino da humanidade. Com freqüência, não há sincronia entre o resultado e a história de um jogo de futebol. Dezenas de imprevistos, como uma bola desviada, mudam tudo. Depois da partida, na nossa racionalidade e com bons argumentos, tentamos dar uma explicação convincente para os fatos.

“Tudo parece fácil e concatenado quando ganhamos; tudo parece disperso e difícil quando perdemos. No entanto, é por tão pouco que se ganha ou se perde. O apito final estabiliza violentamente aquilo que, no transcorrer do jogo, parece um rio catastrófico de mil possibilidades, a nos arrastar com ele.” (Aspectos trágicos do futebol - Nuno Ramos).

Em 1971, o cineasta Pasolini escreveu que na Europa se jogava futebol de prosa e, no Brasil, futebol de poesia. Tempos atrás, Chico Buarque chamou os jogadores europeus de equilibrados e os brasileiros de equilibristas. Disse ainda que os europeus eram os donos do campo, pela disciplina tática e ocupação dos espaços, e os brasileiros eram donos do jogo, pela improvisação e intimidade com a bola. Geniais.

Hoje, está quase tudo igual. Por causa da ciência do esporte e do mundo globalizado, o futebol evoluiu, para o bem e para o mal, e se transformou em um jogo excessivamente técnico (tecnicista), tático, veloz, físico e ensaiado. O futebol e a vida continuam prazerosos e bonitos, porque, mesmo em situações previsíveis, comuns e repetitivas, haverá sempre o acaso e um artista, um craque, para transgredir e reinventar a história.


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mai 13 2008

13 de maio (de 1888)

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Republico o post “Em homenagem ao dia da consciência negra e á revolta da chibata” (de 22/11/2007) pelo dia de hoje, data por demais significativa para o Brasil, para a Bahia em especial, e para o Ceará, não à toa chamada de “Terra da Luz”, mas exatamente porque foi em Redenção, cidade interiorana, onde pela primeira vez os escravos foram libertos neste país, em primeiro de janeiro de 1883. Na entrada da cidade pode-se apreciar o monumento abaixo.

Precursor desse acontecimento, outro fato e personagem marcante da história: o jangadeiro Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar”, de apelido “Chico de Matilde”. Ele se recusou a transportar para os navios negreiros, fundeados no porto de Fortaleza, os escravos que seriam vendidos para o sul do país, isso em 1881.

A REVOLTA DA CHIBATA

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(João Cândido, o Almirante Negro)

O Congresso brasileiro restabeleceu, no mês de agosto de 2003, os direitos de todos os marinheiros envolvidos na chamada “Revolta da Chibata”, ocorrida em 1910. O decreto devolve aos marinheiros suas patentes, permitindo que recebam na Justiça os valores a que teriam direito se tivessem permanecido na ativa. Após 93 anos, resgata-se a memória dos marujos, especialmente do líder da Revolta, João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”.

Para entender a história de João Cândido e da Revolta da Chibata - uma das poucas revoltas populares que atingiu seus objetivos no Brasil - é preciso voltar a 1910. Neste ano, no meio de uma grande instabilidade política, o militar Hermes da Fonseca é eleito para a presidência.

Na noite do dia 22 de novembro de 1910, o novo presidente recebe a notícia: os canhões de alguns dos principais navios de guerra da Marinha Brasileira – neste momento ancorados em frente à cidade, na Baía de Guanabara - apontam para a capital do Rio de Janeiro e para o próprio palácio de governo. As tripulações se rebelaram e tomaram os principais navios da frota.

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(O Minas Gerais, um dos modernos navios recém-adquiridos pela Marinha na época da Revolta)

Três oficiais e o comandante do encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves, estão mortos. Os demais oficiais são pegos de surpresa: os marinheiros manobram a frota exemplarmente, como não acontecia sob seu comando. O movimento, articulado por marinheiros como Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, tem como seu porta-voz o timoneiro João Cândido.

A última chicotada

Os motivos principais da Revolta eram simples: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais. Estes haviam sido abolidos no começo do século, acompanhando o final da escravidão, sendo depois reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo.

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(Ao lado de um dos Marinheiros, João Cândido lê o manifesto da Revolta: fim dos castigos corporais)

No Minas Gerais, por exemplo, no dia da Revolta, o marinheiro Marcelino Menezes é chicoteado como um escravo por oficiais, à frente de toda a tripulação. Segundo jornais da época, recebe 250 chibatadas. Desmaia, mas o castigo continua. O movimento então eclode. João Cândido no primeiro momento não está presente. No calor da luta, são mortos os oficiais presentes no navio, o que terá conseqüências trágicas para os revoltosos.

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(Para surpresa dos oficiais a marujada manobrava sozinha os navios)

Além do Minas Gerais, os marinheiros tomam os navios Bahia, São Paulo, Deodoro, Timbira e Tamoio. Hasteiam bandeiras vermelhas e um pavilhão: “Ordem e Liberdade”. A frota inclui mais de 80 canhões, que são apontados para a cidade. Alguns tiros de aviso chegam a ser disparados. Os marujos enviam um radiograma, onde apresentam ao governo suas exigências: querem o fim efetivo dos castigos corporais; o perdão por sua ação e que melhorem suas condições de trabalho.

A Marinha quer punir a insubordinação e a morte dos oficiais. O governo, contudo, cede. A ameaça à cidade e ao poder de Hermes da Fonseca são reais. Aprovam-se então medidas que acabam com as chibatadas e também um projeto que anistia os amotinados. Depois de cinco dias, a revolta termina vitoriosa.

A despedida do marinheiro

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(Os jornais da época anunciam o término da Revolta: quase 3.000 pessoas. Os mais ricos - fugiram da cidade. A população subiu aos morros para ver as manobras da Armada)

Os marinheiros, em festa, entregam os navios. O uso da chibata como norma de punição disciplinar na Marinha de Guerra do Brasil finalmente está extinto.

Logo, no entanto, o governo trai a anistia. Os marinheiros começam a ser perseguidos. Surgem notícias de uma nova revolta, desta vez no quartel da Ilha das Cobras. O governo recebe plenos poderes do Congresso para agir. A ilha é cercada e bombardeada.

Cerca de 100 marinheiros são presos e mandados, nos porões do navio “Satélite” - misturados a ladrões, prostitutas e desocupados recolhidos pela polícia para “limpar” a capital - para trabalhos forçados na Comissão Rondon, ou simplesmente para serem abandonados na Floresta Amazônica. Na lista de seus nomes, entregue ao comandante do “Satélite”, alguns estão marcados por uma cruz vermelha. São os que morrerão fuzilados e, depois, serão jogados ao mar.

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(João Cândido é conduzido para a prisão)

João Cândido, embora não tenha participado do novo levante, também é preso e enviado para a prisão subterrânea da Ilha das Cobras, na noite de Natal de 1910, com mais 17 companheiros. Os 18 presos foram jogados em uma cela recém-lavada com água e cal. A cela ficava em um túnel subterrâneo, do qual era separada por um portão de ferro. Fechava-a ainda grossa porta de madeira, dotada de minúsculo respiradouro. O comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata Marques da Rocha, por razões que ninguém sabe ao certo, levou consigo as chaves da cela e foi passar a noite de Natal no Clube Naval, embora residisse na ilha.

A falta de ventilação, a poeira da cal, o calor, a sede começaram a sufocar os presos, cujos gritos chamaram a atenção da guarda na madrugada de Natal. Por falta das chaves, o carcereiro não podia entrar na cela. Marques da Rocha só chegou à ilha às oito horas da manhã. Ao serem abertos os dois portões da solitária, só dois presos sobreviviam, João Cândido e o soldado naval João Avelino. O Natal dos demais fora paixão e morte.

O médico da Marinha, no entanto, diagnosticou a causa da morte como sendo “insolação”. Marques da Rocha foi absolvido em Conselho de Guerra, promovido a capitão-de mar-e-guerra e recebido em jantar pelo presidente da República.

João Cândido continuou na prisão, às voltas com os fantasmas da noite de terror. O jornalista Edmar Morel (1979, p. 182) registrou assim seu depoimento pessoal: “Depois da retirada dos cadáveres, comecei a ouvir gemidos dos meus companheiros mortos, quando não via os infelizes, em agonia, gritando desesperadamente, rolando pelo chão de barro úmido e envoltos em verdadeiras nuvens da cal. A cena dantesca jamais saiu dos meus olhos.

Atormentado pela lembrança dos companheiros mortos, João Cândido é algum tempo depois internado em um hospício.

Perto do mar, as “pedras pisadas do cais”

Aos poucos, ele se restabelece. É solto e expulso da Marinha. Os navios mercantes não o aceitam: nenhum comandante quer por perto um ex-presidiário, agitador, negro, pobre e talvez doido. João Cândido continuará contudo perto do mar, até morrer, em 1969, aos 89 anos de idade, como simples vendedor de peixe.

Os que fizeram a Revolta da Chibata morreram ou foram presos, desmoralizados e destruídos. Seu líder terminou sem patente militar, sem aposentadoria e semi-ignorado pela História oficial. No entanto, o belíssimo samba “O Mestre-Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre “nas pedras pisadas do cais”. A mensagem de coragem e liberdade do “Almirante Negro” e seus companheiros resiste.

HOMENAGEM DE JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC À “REVOLTA DA CHIBATA”

Sobre a censura à música, o compositor Aldir Blanc conta: “Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:

  • Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…
  • Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

- O problema é essa história de negro, negro, negro…”

MÚSICA DE JOÃO BOSCO E ALDIR BLANCI

EM HOMENAGEM A REVOLTA DA CHIBATA

Mestre-Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre “nas pedras pisadas do cais”. A mensagem de coragem e liberdade do “Almirante Negro” e seus companheiros resiste.

Para ouvir: http://www.divshare.com/download/2850321-faa

O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
(letra original sem censura)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
(letra após censura durante ditadura militar)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

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mai 12 2008

O país do quem diria

Published by zeducando2 under Artigos e textos

Inicio esta semana postando aqui, pela primeira vez, uma crônica do Veríssimo (Luis Fernando Veríssimo), o autor do Analista de Bajé e de tantos outros livros e textos que nos divertem e fazem pensar. Este, como não poderia deixar de ser vndo das bandas do sul, é mais uma crítica bem-humorada ao atual governo Lula. Se deleitem então com esse “O país do quem diria” publicado nos principais jornais brasileiros nesse último fim-de-semana.

Um brasileiro que tivesse ido para o espaço em 2002 e voltado agora teria toda a razão para estar tonto, e não apenas pelo choque da reentrada na atmosfera. Teria viajado em meio a manifestações de pânico do mercado financeiro com a iminência da eleição do Lula e voltado em meio à festa pelo governo Lula ter recebido a mais alta condecoração que a cabala financeira mundial pode dar, a Medalha do Pagador Confiável, grau de convertido mor. Nosso perplexo viajante no espaço não pararia de repetir a frase mais ouvida no país das expectativas furadas, nestes últimos tempos: “Quem diria… Quem diria…”

Quem diria que quem um dia pregou o calote acabaria um pagador premiado? Quem diria que os barbudos que mudariam tudo quando chegassem ao governo, começando pela política econômica, não apenas continuariam a mesma política como conseguiriam o reconhecimento internacional que as fatiotas do governo anterior não alcançaram?

Quem diria que em vez do caos que previam com a eleição do Lula os bancos se vissem, no seu governo, favorecidos e ricos como nunca antes? Quem diria que, com sua aprovação popular empatando com a aprovação da irmandade financeira, o governo do PT se transformaria num exemplo inédito de populismo conservador?

É verdade que o “quem diria” pode ser dito com tanto quanto agradável surpresa, dependendo da expectativa furada de cada um. Para quem tinha esperanças mais de esquerda, a decepção com o conservadorismo do PT no governo, mesmo compensada com o golpe para a auto-estima do patriciado brasileiro que é o prestígio do torneiro-mecânico nas altas rodas do dinheiro, e mesmo com os avanços simultâneos havidos na distribuição de renda no país, ainda é uma decepção.

Para quem já estava fazendo as malas para fugir do caos em 2002, mesmo após o Lula ter avisado que não faria nada do que eles estavam temendo no governo, o “quem diria” vem acompanhado de um sorriso incrédulo. Quem diria que seria logo num governo do PT a apoteose do pensamento único?

O grau de país seguro para investimentos significa, em linguagem menos cabalística, que é seguro jogar neste cassino. O crupiê não tira cartas da manga, a roleta está no nível certo. A analogia só não é completa porque nos cassinos reais a casa costuma ganhar mais do que os apostadores e, no Cassino Brasil, onde o dinheiro entra e sai sem controles — e agora entrará e sairá com mais volume —, a casa é a que menos ganha.

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mai 08 2008

Afinal, nosso Estado é laico ou não ?

Posto abaixo, para reflexão, o excelente e atualíssimo artigo do jornalista Hélio Schwartsman sobre Ciência, Religião e Estado, publicado na Folha ONLINE em 31/01/2008.

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Ciência sob ataque

Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como
não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos.
Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de
um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias “alternativas”
ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes)
mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores
procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas
de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes
homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.

Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam
Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual,
como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes
enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais
afinados com o “Zeitgeist”. O inquietante no caso brasileiro é que os ataques
partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam
em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra,
representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos,
embora não costumem militar nas fileiras da “hard science”, são –ou deveriam
ser– aquilo que antigamente chamávamos de “Geistwissenschaftler”, ou seja,
simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos
etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.

Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos.
De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do
qual tem emergido muito material interessante para “insights” e reflexões.
Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente
possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como “reducionistas”
–o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o
efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se,
por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do
nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos.
Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado?
Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes
que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica
deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados,
como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável
para as “cobaias” e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento
esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização
da Justiça.

Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética –equivocadamente,
ressalte-se– que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações
nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a
caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral,
acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas
doenças incapacitantes.

Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um
dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono
com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista
social –ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada– se oponha à realização
de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações
que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes “Geistwissenschaftler”
estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros
n’água –possibilidade bastante real– que critiquem, como convém ao método
científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão
certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem
com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras
de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura
e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a
dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.

Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina
Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais
até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que
precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de
Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre
Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São
Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos
“neocons” dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser
ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.

Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria
ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi
convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga,
mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do
Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado “estabelecer
cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento
ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.
Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável,
se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia
ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados
em questões abertas a escrutínio religioso.

Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele
pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições
normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente
do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos
como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas.
Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin
é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado –e nunca
falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de
fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes
a novas classes de antibióticos.

O criacionismo em sua mais nova roupagem –o tal do design inteligente–
sustenta que a evolução é “apenas” uma teoria e cheia de supostas dificuldades,
como se tudo em ciência não fosse “apenas uma teoria”, aí incluída a teoria
da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais
para ter surgido “por acaso”: se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão
das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo
a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.

“Non sequitur”, que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de
quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora
mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente
–que conserva o que é útil e despreza o que não o é– nada tem a ver com
acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um
dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas.
Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos
de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria
delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo
de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas
por uma inteligência.

O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios
capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico
e já socialmente orientados a “aceitar a palavra de Deus”. Admitir que padres
e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma
necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas
de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida
com base em convicções pessoais ou maiorias.

E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus.
Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas.
Só que estas não lhe cabem.

O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo
demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso
pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno.
Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar
que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas
da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.

Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos
que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem
pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos
séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento
para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso
reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.

(Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia,
publicou “Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão”
em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas).

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mai 06 2008

O mito racial e o QI dos baianos

Diante das sandices ditas semana passada pelo Diretor da Faculdade de Medicina da UFBA, eu prometi a mim mesmo que não iria postar nada neste espaço a esse respeito, só enviei um e-mail aos amigos mais chegados dizendo que, mesmo não sendo baiano “legítimo”, me senti profundamente ofendido com os impropérios. Foi então que tive acesso ao artigo com o título deste post, da pena de Mauro Santayana, que reproduzo abaixo pela sua clareza e profundidade. Teço antes algumas cosiderações:

1) Sobre esta questão racial que se arrasta há cinco séculos nesta nossa Pindorama, uma pergunta apenas: quem não é negro neste país ? (considerando não só o fenótipo, mas também o genótipo);

2) Sobre a “brilhante” idéia surgida há alguns anos de se reservar cotas para negros, por que só para eles ? Homossexuais, índios, nordestinos, mulheres e outros grupos também não teriam direito a cotas ? E é aí que chegamos a uma singela questão matemática: se somarmos todas essas cotas certamente ultrapassaríamos os 100 %…

3) O mais racional seria a proposta da antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, quando propõe, no lugar de cotas raciais, cotas de pobreza.

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“O mito racial e o QI dos baianos”

O mais primitivo dos instintos humanos é o do medo ao diferente. Deixando de lado a evidência científica de que a vida dos homens se iniciou na África, podemos imaginar como foram os primeiros contatos entre os negros e os brancos, surgidos depois da demorada diáspora. Do medo ao diferente, surgiu a astúcia do medroso em buscar, para si mesmo, qualidades superiores às do temido. Não se fundando na realidade genética – o racismo se exacerba em todas as suas manifestações. Não é a aparência que forma a habilidade intelectual e o comportamento ético dos homens. O que identifica os grandes e pequenos grupos humanos é a cultura, são os hábitos, os ritos aos quais se vinculam.

Espanta que um médico e educador, elevado à coordenação dos cursos de medicina da Universidade Federal da Bahia, dê à opinião pública a explicação de que a má avaliação do setor a seu cargo se deve ao baixo quociente de inteligência dos baianos. Embora não tenha associado diretamente esse desprezo à forte presença negra no Estado, ele a insinuou, quando fez a pobre ironia sobre o jogo do berimbau. A Bahia deu ao Brasil alguns de seus maiores intelectuais, a começar por Ruy Barbosa. O grande tribuno tinha seus defeitos, mas nunca lhe faltou a excepcional inteligência. Há centenas de exemplos para mostrar que os baianos têm o mesmo quociente intelectual de todos os outros povos, mas basta acrescentar o nome de Anísio Teixeira. O educador nos trouxe uma filosofia de ensino que – como a de seu sucessor, o pernambucano Paulo Freire – foi desprezada pelas elites, por causa da promessa de libertação que trazia. Anísio ensinava os alunos a pensarem com autonomia, e Freire a entenderem o meio em que viviam e a agirem pela liberdade coletiva. Anísio morreu durante a Ditadura e Freire amargou o exílio. Para as classes dirigentes, só os ricos têm direito a uma boa educação, que ensine a pensar, e pensar em como defender seus interesses de classe.

Professores universitários e representantes de grupos de mestiços enviaram carta ao presidente do STF, pedindo que o tribunal acate as ações que contestam as cotas universitárias para negros.

Entre outros argumentos há o do senhor Leão Alves, do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro: na Amazônia, onde a presença negra foi raríssima, os caboclos – descendentes de índios e brancos – se fazem passar por negros, com o objetivo de obter as vantagens da “discriminação afirmativa”, e entram em choque com os negros, de migração recente. O sistema de cotas, entre outros defeitos, estimula a mentira e o oportunismo e cria antagonismos entre os pobres. As cotas, repetimos, devem ser para todos os pobres, porque só a pobreza é empecilho para a educação de qualidade.

Temos que ter cuidado com a lógica da linguagem. Quando discriminamos alguns afirmativamente, estamos discriminando outros, de forma negativa. Corremos o risco de conceder às minorias os direitos que negamos à maioria. O jurista Yves Gandra Martins foi, para alguns, “politicamente incorreto”, ao dizer que os índios são cidadãos com mais direitos do que os brasileiros em geral. Sua razão lógica não pode ser contestada. Embora ele não tenha assim concluído, podemos dizer que a demarcação das grandes reservas só será admissível quando houver real reforma agrária no país e o acesso igual à terra de todos aqueles que a reivindicam.

A antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, propõe, em lugar de cotas raciais, cotas de pobreza. Só o fato de ser negro não torna a pessoa incapaz de freqüentar boas escolas, alimentar-se bem, ter saúde e amparo familiar – que o prepare para vencer os exames vestibulares. Há famílias negras de classe média, com bons rendimentos, e nível cultural elevado, embora saibamos que o legado da escravidão ainda pesa sobre a comunidade.

O que impede os negros pobres de chegarem à universidade é a mesma coisa que impede os brancos pobres de fazerem o mesmo caminho: a pobreza. Para todos, brancos e negros, a discriminação afirmativa deve começar com boas escolas públicas, assegurando-se aos alunos o direito de alimentar-se bem e desfrutar do mesmo respeito dos mestres e administradores do ensino.

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Sobre este mesmo tema ainda recomendo o artigo CAMPO DE EXTERMÍNIO TAMBÉM NÃO , João Ubaldo Ribeiro , do último domingo. Continue Reading »

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mar 11 2008

Dia Internacional da Mulher

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           Com pelo menos dois dias de atraso, segue minha homenagem, um tanto quanto diferente e inusitada, às mulheres pelo seu dia.

          Os textos, as rosas, as músicas e os vídeos vocês devem tê-los recebidos aos montes, como no post de boa qualidade, feito pelo Zé Luis, que vocês podem conferir em http://www.jlcarneiro.com/2008/03/sexo-fragil/.

          Seguindo a ’linha’ deste espaço, preferi postar aqui o artigo de Malu Fontes intitulado “O hímen acaba de ser reinventado” que saiu no A TARDE de sábado último, e também no site da Rádio Metrópole de Salvador com o título “A reinvenção do hímen“.

          A autora, que por sinal já frequentou este blog antes, é professora de Comunicação da UFBA e tem uma forma de escrita muito crítica, peculiar e interessante. Vale a pena ler, homem ou mulher, com ou sem hímen.

A REINVENÇÃO DO HÍMEM

A cada oito de março é a mesma celebração em torno das conquistas femininas, todas concentradas basicamente na segunda metade do Século XX, a maioria proporcionada por um evento perverso para a história da humanidade: a Segunda Guerra.

Depois da Guerra, nem a mulher poderia continuar a ser a mesma nem tampouco os países que participaram mais diretamente do conflito poderiam continuar a tratá-la como um apêndice do homem.

De lá para cá, as contendas com o patriarcardo, o machismo e a misoginia foram tantas que metáforas da libertação, como a queima de sutiãs ou a defesa do amor livre após o anticoncepcional, são apenas capítulos mais barulhentos de uma luta sem trégua que toda mulher ainda trava, todos os dias, para assumir as rédeas de sua própria vida e dos seus desejos.

A versão dos pais e maridos passou por uma atualização razoável, o Estado criou mecanismos para protegê-las da discriminação e da violência, mas é inegável o surgimento de uma nova forma de poder exercido sobre as mulheres e seu corpo: o da cultura do consumo que estabelece padrões de beleza, aos quais praticamente todas se submetem voluntariamente, feito cordeiros, mesmo que para isso sofram privações alimentares, dores físicas e coloquem em risco a saúde, seja ingerindo anabolizantes ou insistindo em virar faquir.

Não bastasse a obrigatoriedade de ser eternamente magra, transbordar sensualidade e sexualidade, equilibrar-se em saltos quinze para ir à esquina, torturar-se em sessões espartanas de malhação, manter-se com aparência de 18 anos dos 12 aos 80, inflar seios, glúteos e coxas, caber em manequins de adolescentes e serem eficientes donas de casa e cozinheiras nas horas ‘vagas’, está em cena uma nova tendência entre mulheres endinheiradas que caminham para a enésima relação: passar no cirurgião plástico e entre um botox, um silicone, um lifting e uma lipo, reconstruir o hímen à perfeição, para “dar de presente” e agradar ao homem da vez.

Assim caminha parte da mulherada: ora orgulhando-se da ascensão profissional, ora pagando para reconstruir uma membrana que durante séculos encarnou, como poucas coisas o fizeram, o poder e a propriedade absolutos do homem (tanto de pais quanto de maridos) sobre o corpo e o desejo femininos. A diferença é que, no passado, o hímen era uma exigência cultural de um tempo (ainda é em muitos rincões).

Hoje, é apenas mais um sacrifício comprado por mulheres para agradar homens que, se pudessem, diferentemente delas, mandariam encadernar e distribuir toda a vida sexual pregressa, a mesma que, simbolicamente, a mulher do tempo das plásticas busca apagar numa mesa cirúrgica. 

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fev 21 2008

Maior avião do mundo no Rio de Janeiro em 1931

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maior_aviao_antigo.jpg

Reedito este post para colocar o fime abaixo.

O título do artigo começa assim: Não, não é OVNI. É um hidroavião de 30 toneladas e 12 motores (eu disse 12!) o que vocês estão vendo sobre a Enseada de Botafogo“.

Quem quiser ver mais detalhes acesse o site: http://www.serqueira.com.br/mapas/dox.htm e quem quiser ver a “versão mais moderna” desse monstro acesse o post que fiz aqui em 10 de janeiro último: Boeing 787 vulnerável a ataque hacker !

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fev 19 2008

Apagão na Internet e Lixo Eletrônico

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Publico neste espaço, convidando a uma reflexão sobre a influência das tecnologias da informação no meio ambiente, um artigo de Washington Novaes intitulado “Haverá limite para a internet?” que foi publicado no Estado de São Paulo, em 15/02.

Entre outras, são colocadas as questões dos alertas de um futuro “apagão” da Internet, como os verificados recentemente no Oriente Médio e na Ásia, e a do lixo eletrônico, num mundo que chegará a 1bilhão de computadores este ano. Segundo o site IDGNOW, o lixo eletrônico mundial cabe num trem capaz de dar a volta ao mundo.

Aperitivo: “Estudo situa as emissões de gases poluentes geradas pelas tecnologias
de informação e comunicação no mesmo nível das emissões feitas pelo
transporte aéreo no mundo, 2% do total”

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jan 10 2008

Boeing 787 vulnerável a ataque hacker !

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Você viajaria tranquilo ?

b787ultima.jpg

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jan 10 2008

Vem aí o petaflop !

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A grandeza Peta é da ordem de 10 elevado a 15. Dá para ter uma idéia de uma máquina equivalente a 100 mil PCs, ou a 2 Km de laptops ?

A notícia mais recente, da InfoExame de dezembro/2007, é esta:

“MÁQUINA DE 1 PETAFLOPS”

“A IBM está construindo o que, segundo ela, será o primeiro supercomputador com poder de processamento comparável ao cérebro humano (???) e o primeiro a superar a barreira de 1 petaflops - ou 1 quatrilhão de operações por segundo. Apelidada de Roadrunner, a máquina terá 16.000 chips Opteron, da AMD, e igual número de processadores Cell, do consórcio STI (Sony, Toshiba e IBM). O Roadrunner ficará no laboratório de Los Alamos, nos Estados Unidos, onde foram criadas as primeiras bombas atômicas”.

Antes, porém, tem ainda esta abaixo:

IBM exibe supercomputador de 3 petaflops

 Terça-feira, 26 de junho de 2007 - 10h50

Divulgação
ninguém tem uma máquina mais rápida que ele...
(Engenheiro da IBM sorri: ninguém tem uma máquina mais rápida que ele)
SÃO PAULO - A IBM vai produzir uma nova geração da linha de supercomputadores Blue Gene, que poderá atingir velocidade máxima de 3 petaflops.Atualmente, o modelo Blue Gene/L é capaz de processar 280 Tflops. A nova máquina, o Blue Gene/P, poderá trabalhar em circunstâncias normais processando dados a uma velocidade de 1 petaflop, o triplo da capacidade do Blue Gene/L.A velocidade de 3 petaflops é possível, mas apenas em momentos de pico. O computador não pode operar continuamente nesta capacidade, diz a IBM. O BlueGene/L deve ficar pronto até o final deste ano. Para construir a máquina, a IBM vai usar 294 912 processadores PowerPC 450 de 850 MHz. A plataforma usada na montagem do BlueGene/L permite, em tese, usar até 884,7 mil processadores.O Bluge Gene/P será usado inicialmente em pesquisas científicas na Alemanha. A Big Blue explica que a máquina é capaz de simular “em apenas uma manhã” os efeitos que uma nova droga pode ter sobre o corpo humano mesmo processando dados de 27 milhões de pessoas diferentes. Outra característica destacada pela IBM é a eficiência no consumo de energia da máquina. Segundo a fabricante, a tecnologia usada no Gene/L permite que ele seja 7 vezes mais eficaz no consumo de energia elétrica que outros supercomputadores usados em laboratórios e corporações. Para dar uma idéia da capacidade de processamento do Blue Gene/P, a IBM afirma que ele eqüivale a 100 mil PCs modernos trabalhando juntos ou uma pilha 2 quilômetros de laptops operando em conjunto.

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