Archive for the 'Canto da poesia' Category

abr 24 2008

A menina e o pássaro encantado (Rubem Alves)

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Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar.
Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades…
Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.
Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.
“- Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você…”.
E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.
“… Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.
Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.”
E de novo começavam as estórias.
A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre.
Mas chegava sempre uma hora de tristeza.
“- Tenho que ir”, ele dizia.
“- Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar….”.
“- Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “– Eu também vou chorar.Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades. Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar.
Assim ele partiu. A menina sozinha chorava de tristeza à noite, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada.
“- Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz”.
Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera.
Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar.
Cansado da viagem, adormeceu.
Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro.
“- Ah! Menina… Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias…”.
Sem a saudade, o amor irá embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram- se num cinzento triste. E veio o silêncio; deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não mais agüentou.
Abriu a porta da gaiola.
“- Pode ir, pássaro, volte quando quiser…”.
“- Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito.
Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar…”
E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia.
“- Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo…”.
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos…
“- Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro.
Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar.
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento.
- Quem sabe ele voltará amanhã….
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro

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abr 16 2008

Os verdadeiros tesouros, a Via-Láctea e a Divina Comédia Humana

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Um ’causo-poesia’ de Olavo Bilac , a sua “Via-Láctea” e a “Divina Comédia Humana” de Belchior, em letra e música. 

Certa vez, o dono de um pequeno sítio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o na rua: - Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que o senhor tão bem conhece. Será que o senhor poderia redigir o anúncio para o jornal? Olavo Bilac apanhou o papel e escreveu: “Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranqüila, das tardes, na varanda!”. Meses depois, o poeta encontra o homem e pergunta-lhe se havia vendido o sítio. - Nem pense mais nisso, disse o homem. Quando li o anúncio é que percebi a maravilha que eu tinha! Às vezes, não descobrimos as coisas boas que temos conosco e vamos longe atrás da miragem de falsos tesouros. Valorize o que você tem, os amigos que estão perto de você, o emprego que Deus lhe deu, o conhecimento que você adquiriu, a sua saúde, o sorriso de seus familiares. Esses são os verdadeiros tesouros.

                                     

XIII

 

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

 Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

 Que, para ouvi-las, muita vez desperto

 E abro as janelas, pálido de espanto…

 

E conversamos toda a noite, enquanto

A via-láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

 

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

 

E eu vos direi:”Amai para entende-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 

 

Divina Comédia Humana                                         
música: http://www.divshare.com/download/4270776-131
letra: http://vagalume.uol.com.br/belchior/divina-comedia-humana.html
 

 

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mar 06 2008

Fábula da convivência

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Apesar de ser uma fábula, e não uma poesia, de tão poética e profunda resolvi postar neste “Canto da Poesia”. Já encontrei blog que diz que a autoria é de Schopenhauer, mas não tenho certeza.

Há milhões de anos, durante uma era glacial, quando parte de nosso planeta esteve coberto por grandes camadas de gelo, muitos animais, não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições. Foi, então, que uma grande quantidade de porcos-espinho, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começaram a se unir, juntar-se mais e mais. Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos, agasalhavam uns aos outros, aqueciam-se mutuamente, enfrentando por mais tempo aquele frio rigoroso. Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se, feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se, por não suportarem mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doíam muito… Mas essa não foi a melhor solução! Afastados, separados, logo começaram a morrer de frio, congelados. Os que não morreram voltaram a se aproximar pouco a pouco, com jeito, com cuidado, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver sem magoar, sem causar danos e dores uns nos outros. Assim, suportaram-se, resistindo à longa era glacial. Sobreviveram.

É fácil trocar palavras, difícil é interpretar o silêncio!

É fácil caminhar lado a lado, difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto, difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos, difícil é reter o calor!

É fácil conviver com pessoas, difícil é formar uma equipe!

  

Fábula da convivência

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fev 10 2008

Ildásio Tavares

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Talvez, fora de terras baianas, o poeta Ildásio Tavares seja pouco conhecido, mas por essas plagas ele é tido como um dos melhores, seguem duas poesias de sua pena:

ildasio_tavares.jpg

A Chave do Coração

Há sempre uma mulher à tua espera

Em uma casa à beira do caminho,

silenciosamente atrás da porta.

Se a porta a caso estiver trancada,

busca a chave. Porém, se a encontrares,

podes não saber o jeito de dar voltas

na fechadura sem causar sobressaltos.

Por conseguinte, paciência.

A equação da mulher tem muitas incógnitas:

Sete anos de pastor serviu Jacó

outros sete anos inda serviria,

pois abriu uma porta e outra queria.

  

O meu tempo

Não existe hora certa, existe o meu relógio,

Lembrando sempre com seu tic-tac

Que há vida

Para ser vivida

Que houve a vida

Que se não viveu

Não importa que o rádio renitente ruja

São tal hora e tal minuto

Hora oficial

Afinal

Que há de oficial em minha vida?

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jan 16 2008

Se eu pudesse

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gandhi.jpgSe eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida.A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora. Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem. Daria a capacidade de escolher novos rumos, novos caminhos.Deixaria, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável:

   Além do pão, o trabalho.

   Além do trabalho, a ação.

   Além da ação o cultivo à amizade.

E, quando tudo mais faltasse, um segredo:

O de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída.”

Mahatma Gandhi

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jan 12 2008

Aniversário do Henfil

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Em homenagem a Henfil um dos maiores brasileiros de todos os tempos, que faria 63 anos neste janeiro de 2008, criador de personagens como Graúna, Fradim e Capitão Zeferino (pela ordem abaixo), posto aqui uma poesia de seu livro “Diretas Já“:

“Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente”

grauna.gif                       fradim.gif                      capzeferino.gif

* estes personagens, entre outros, viviam inúmeras situações humorísticas e satíricas retratando a miséria do Nordeste, onde a verdadeira personagem era a caatinga (fonte: Gibiteca Henfil).

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dez 06 2007

Como demoramos…

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Demoramos muito para pedir perdão.

Demoramos muito para perdoar.

Demoramos muito para dizer: eu te amo.

Demoramos muito para descobrir o amor, que as vezes está a seu lado…

Demoramos muito para descobrir a beleza do amanhecer, o canto dos pássaros e o crepúsculo quando o sol se deita no horizonte…

Demoramos muito para agradecer a Deus a magia da vida, da natureza, do mar deslumbrante e poderoso e do ar que respiramos.

Demoramos muito à agradecer a nossa Mãe, o ser que somos e o dom da vida que ela nos deu.

Não deveríamos demorar tanto para entrarmos em harmonia com a vida, maior bem que Deus nos deu.

Nosso tempo aqui na terra é muito curto.

Lembrem-se, estamos de passagem.

Edla Marques Soares

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nov 20 2007

Mário Lago (1)

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‘Sonhar é dar à vida nova cor,
dar gosto bom às lágrimas de dor.
O sol pode apagar, o mar perder a voz,
mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.’
 
(Mário Lago)

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nov 08 2007

João Guimarães Rosa (1)

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Inaugurando 

 “O correr da vida

embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria,aperta, daí afrouxa;

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente

é coragem.”

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out 31 2007

Poeminha do Contra (Mario Quintana 1)

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“Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão…eu passarinho!”

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