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mai 08 2008

Afinal, nosso Estado é laico ou não ?

Posto abaixo, para reflexão, o excelente e atualíssimo artigo do jornalista Hélio Schwartsman sobre Ciência, Religião e Estado, publicado na Folha ONLINE em 31/01/2008.

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Ciência sob ataque

Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como
não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos.
Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de
um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias “alternativas”
ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes)
mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores
procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas
de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes
homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.

Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam
Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual,
como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes
enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais
afinados com o “Zeitgeist”. O inquietante no caso brasileiro é que os ataques
partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam
em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra,
representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos,
embora não costumem militar nas fileiras da “hard science”, são –ou deveriam
ser– aquilo que antigamente chamávamos de “Geistwissenschaftler”, ou seja,
simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos
etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.

Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos.
De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do
qual tem emergido muito material interessante para “insights” e reflexões.
Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente
possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como “reducionistas”
–o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o
efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se,
por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do
nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos.
Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado?
Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes
que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica
deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados,
como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável
para as “cobaias” e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento
esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização
da Justiça.

Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética –equivocadamente,
ressalte-se– que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações
nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a
caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral,
acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas
doenças incapacitantes.

Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um
dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono
com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista
social –ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada– se oponha à realização
de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações
que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes “Geistwissenschaftler”
estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros
n’água –possibilidade bastante real– que critiquem, como convém ao método
científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão
certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem
com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras
de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura
e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a
dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.

Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina
Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais
até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que
precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de
Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre
Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São
Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos
“neocons” dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser
ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.

Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria
ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi
convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga,
mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do
Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado “estabelecer
cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento
ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.
Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável,
se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia
ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados
em questões abertas a escrutínio religioso.

Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele
pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições
normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente
do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos
como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas.
Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin
é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado –e nunca
falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de
fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes
a novas classes de antibióticos.

O criacionismo em sua mais nova roupagem –o tal do design inteligente–
sustenta que a evolução é “apenas” uma teoria e cheia de supostas dificuldades,
como se tudo em ciência não fosse “apenas uma teoria”, aí incluída a teoria
da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais
para ter surgido “por acaso”: se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão
das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo
a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.

“Non sequitur”, que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de
quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora
mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente
–que conserva o que é útil e despreza o que não o é– nada tem a ver com
acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um
dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas.
Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos
de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria
delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo
de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas
por uma inteligência.

O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios
capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico
e já socialmente orientados a “aceitar a palavra de Deus”. Admitir que padres
e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma
necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas
de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida
com base em convicções pessoais ou maiorias.

E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus.
Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas.
Só que estas não lhe cabem.

O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo
demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso
pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno.
Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar
que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas
da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.

Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos
que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem
pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos
séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento
para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso
reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.

(Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia,
publicou “Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão”
em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas).

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mar 29 2008

O maior símbolo ocidental de todos os tempos

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cruz1.jpg 

Ainda na ‘banguela da Semana Santa’, e independente de qualquer religião (ou de não-religião), o texto abaixo vale ser lido porque o símbolo, pelo menos no mundo ocidental, é o maior de todos, e a pena de Cony é sempre muito boa !

O MAIOR SINAL DE TODOS OS TEMPOS

Carlos Heitor Cony  

cony.jpg

Dois carpinteiros, numa oficina não muito longe do templo, estão aplainando duas peças de madeira.
A encomenda fora feita por alguém do palácio de Pilatos. Trabalham em silêncio, com suas ferramentas: a lâmina dentada para serrar, a lâmina polida para aplainar. Pouco depois, colocaram uma das peças cruzando a outra.
Antes do meio-dia, virão buscar aquele instrumento de ignomínia no qual deverá morrer um condenado. Na véspera, eles haviam entregado duas encomendas iguais para que nelas morressem dois ladrões, um de Jerusalém, outro de Samaria.
O trabalho termina: a cruz está pronta. Deixam-na do lado de fora, é um objeto que não será roubado por ninguém.
Os judeus nem sequer a tocariam. Os soldados romanos, que desprezavam tudo o que os judeus produziam, viriam apanhá-la para a execução do condenado.
Os dois carpinteiros fecham a oficina; um deles vai beber na nova taberna aberta no caminho que leva a Jericó; o outro se dirige para casa, pouco antes da porta de Damasco. Eles não sabem que acabaram de criar o maior símbolo da história.
Nem Fídias, nem Michelangelo, ao esculpirem mármores imortais, jamais fizeram algo que se aproximasse da universalidade daqueles dois madeiros cruzados.
Erguida num morro próximo à cidade, que desde os tempos de Davi chamavam de Gólgota, e que os romanos, supersticiosos, chamavam de Calvário (parecia um crânio sinistro e calvo), aquela cruz iniciaria sua trajetória mansamente.
Durante os próximos três séculos, enfrentaria a cólera dos imperadores de Roma. Venceria-os um a um.
Milhões de seres humanos morreriam com os olhos fixos naqueles dois madeiros atravessados. Em sua simplicidade, seria o instrumento mais poderoso produzido pela mão do homem.
Atravessaria os séculos em estandartes que conquistariam o Velho Mundo. E romperia os mares no mastro das caravelas que descobririam o Mundo Novo. Seria gravado a fogo no punho das espadas e também no escudo de aço dos cruzados. Encimaria o pórtico dos castelos. E, à sua sombra, peregrinos de todos os tempos procurariam refúgio e consolação.
Gosto de citar, à minha maneira e com as minhas palavras, o prefácio que Wilson Barrett escreveu para um romance que foi filmado pela Paramount ali pelos anos 30. Humberto de Campos, no Brasil, fez o mesmo. Giovanni Papini, na Itália, incorporou a mesma idéia em sua biografia de Cristo.
Dois simples madeiros, toscamente aplainados, foram reproduzidos em ouro e prata no peito de milhões de crentes e, transformados em mármore ou bronze, assinalariam milhões de túmulos daqueles que, confiados em sua fé, esperam a ressurreição dos mortos.
O gesto primário de quem assinala um ponto ou dele toma posse é repetido todos os dias, há mais de dois mil anos, na cabeça das crianças, no peito dos mortos, nas mãos que se casam, na testa daqueles que pedem bênção. E tudo nasceu naquela tarde em Jerusalém, quando dois carpinteiros aplainavam dois madeiros que nada significavam.
Em alguns lugares, a pena de morte por crucificação importava num suplício suplementar ao condenado: ele teria de levar o instrumento de sua tortura, a haste mais pesada. O braço seria pregado no local do sacrifício.
Assim fora feito na véspera, com as duas cruzes destinadas aos dois ladrões. Mas haviam recebido instruções para pregarem o braço na haste a fim de que o condenado daquela tarde tivesse maior peso para carregar. O que fizera ele para merecer um castigo a mais?
Só sabiam que era um forasteiro que viera ao templo para celebrar a Páscoa. Que crime cometera ele? Os dois carpinteiros ficariam assombrados se conhecessem o destino daquela encomenda. Nenhuma máquina fabricada pelo homem teria a formidável força daquele sinal.
Eles fecharam a oficina, um deles dirigiu-se à nova taberna onde - diziam - se bebia um vinho forte, produzido não longe dali, nos vinhedos de Jericó. O outro foi para casa, situada pouco antes da porta de Damasco, preparar-se para o Shabat - que começaria quando a primeira estrela, solitária, brilhasse sobre o deserto da Judéia.

(crônica publicada originalmente em 1997). Folha de São Paulo

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mar 08 2008

Deus - uma dúvida

Com este título, o psicólogo e escritor Ezio Flavio Bazzo publicou artigo no jornal Correio Brasiliense (01/03/08), comentando três livros dos quais já li e comentei neste blog o primeiro: “Deus - um delírio” (Richard Drawkins), ”O Espírito do Ateísmo” (André Comte Sponville) e ”Carta a uma nação cristã” (Sam Harris).

 deus_um_delirio2.jpg          espirito_do_ateismo.jpg          carta_nacao_crista.jpg

Divido com vocês nesse “Espaço ecumênico”, colocando também no ”Baú de livros”, quatro trechos do artigo referido:

1) …Daí o espirituoso alerta de Harris: “Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores - e muitos dos que são eleitos - acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz das galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante e pela mão de um Deus invisível”.

2) E o mais bizarro de tudo isso é que esse Deus absconditus* tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos. Se pelo menos aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé… Mas não, prefere o anonimato e a clandestinidade. Insiste em habitar o invisível, fato que, para o filólogo Comte-Sponville, é simplesmente espantoso. Um Deus que se esconde com tanta obstinação! “Segia mais simples e mais eficaz - diz - Deus consentir em se mostrar, pois, se quisesse que eu acreditasse nele, resolveria num instantinho este assunto (…) Um Deus oculto ! Os humanos só se escondem quando têm medo ou vergonha, mas Deus ?”

3) … Noruega, Islândia, Canadá, Austrália, Suiça, Suécia, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da Terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores da expectativa de vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Inversamente, os 50 países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são inabalavelmente religiosos.

4) …Dawkins nos lembra que, quando perguntaram a Bertrand Russell o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russell nunca acreditou nele, este teria respondido: “Não havia provas suficientes”.

* Deus absconditus = Deus escondido

O texto completo você encontra em: http://www.redehumanizasus.net/node/50

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fev 12 2008

Que é ciência? E para que ela serve?

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Por que postar um texto dessa natureza no “Espaço ecumênico” ? Porque seu conteúdo está intimamente ligado à questão religiosa.

Do blog do Pedro Dória de ontem, retirei os seguintes trechos do texto “A Fé na Ciência“, de Hélio Schwartzman, editorialista da Folha de São Paulo :

“A ciência, diferentemente da maioria das religiões, perde o direito até mesmo de pretender afirmar verdades acabadas. Tudo que ela pode fazer é gerar hipóteses a ser testadas e refutadas empiricamente. Quando essas suposições passam muito tempo sem ser cabalmente desmentidas, como é o caso da evolução mediante seleção natural, dizemos que são corroboradas. É claro que esse é um processo em aberto, pois o fato de não terem sido refutadas até aqui não encerra a garantia de que não o serão amanhã. Isso é o mais perto da ‘prova’ que a ciência pode chegar.

Essa precariedade epistemológica cerca toda a ciência, do neordarwinismo, à chamada lei da gravidade. Embora não ouçamos com muita freqüência gente afirmando que a gravidade é ’só uma teoria’, é exatamente isso que ela é. O que o neocriacionismo travestido de ‘design inteligente’ faz é embaralhar o sentido de teoria em suas acepções fraca (a do dia-a-ia) e forte (epistemológica) para, em meio à confusão conceitual, semear seus pressupostos algo dogmáticos. O fato de o neoevolucionismo apresentar, como toda teoria, algumas lacunas de maneira alguma nos autoriza a inferir um deus logo à primeira dificuldade.

Tomemos uma dessas medidas indiretas, a evolução da expectativa de vida ao nascer. Estima-se que o tempo médio de vida do homem de Neanderthal fosse de 20 anos. No Paleolítico Superior, o Homo sapiens chegava a algo como 33 anos. Na Idade do Bronze, com o advento da agricultura e o aumento do tamanho dos assentamentos humanos (mais doenças e guerras mais mortíferas), a expectativa de vida cai para 18 anos. Noções de higiene desenvolvidas por gregos e romanos (saneamento) conseguem elevar a média para 36-45 (Grécia clássica) 20-30 (Roma clássica). Mas, no século 20 e início do 21, na chamada era científica, assistimos a um um verdadeiro salto da esperança de vida, que atinge os 67 anos (média global), quase 80 se considerarmos só os países desenvolvidos. Um cético hiperbólico diria que a correlação nada prova. Um dogmático religioso diria que este é o plano de Deus. Já eu prefiro atribuir tal avanço a subprodutos da ciência como antibióticos, vacinas e grandes excedentes agrícolas. Em poucas palavras, embora a ciência esteja conosco de forma razoavelmente bem estabelecida há apenas 200 anos, já fez mais pelo bem-estar da humanidade do que todas as rezas e mandingas de religiosos durante milênios.”

helio_schwartsman.jpg

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jan 28 2008

Ecos de tempos perturbadores

chomsky.jpgEm homenagem aos acontecimentos ocorridos em 1968, que muitos dizem ainda não terem terminado e que se tornaram livros, como o famoso 1968-O ano que não terminou de Zuenir Ventura, o jornal O Globo publica uma série de reportagens, numa das quais encontra-se uma entrevista com Noam Chomsky, um dos maiores pensadores de esquerda em atividade no mundo, no caderno Especial de ontem.

Abaixo dois trechos para reflexão sobre assuntos sempre recorrentes neste blog, religião e educação-intelectualidade:

Quais são as consequências da politização da religião hoje, especialmente nos EUA ?

CHOMSKY: … Mais assustadora é a possibilidade de que pessoas como Bush, realmente acreditem no que dizem. Imagine a reação de um marciano racional vendo a Terra e assistindo ao espetáculo de um perigoso confronto entre dois extremistas, um dos quais está esperando a volta de Jesus, o outro o do 12º imã. As espécies podem ter a sorte de sobreviver quando o país mais rico e poderoso da História for varrido pelo fundamentalismo religioso extremista.

Quem são e como definir um intelectual de esquerda hoje ?

CHOMSKY: Não levo muito a sério o termo ‘intelectual’. Algumas das pessoas mais educadas, sofisticadas e astutas que conheçi tiveram pouca educação formal. … Os intelectuais de esquerda, pelo menos os que merecem ser levados a sério, têm as mesmas preocupações do passado: analisar criticamente sistemas de poder e dominação, e usar seu privilégio para contribuir com movimentos populares que buscam superar a autoridade ilegítima, e estender a esfera da liberdade e da justiça.

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jan 25 2008

A força do pensamento (Dráuzio Varella)

Mais uma vez posto neste espaço um texto do Dr. Dráuzio Varella. Desta vez optei por publicar em duas seções simultâneas, ”Espaço ecumênico” e “Zuniversitas”, porque tem tudo a ver com crença e ciência.

Trata-se de um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 09 de junho de 2007.

“A montanha ir até Maomé é tão improvável quanto o Everest surgir na minha janela”

Veja este e outros artigos do mesmo autor em: http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/artigos_indice.asp 

Bom proveito !

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jan 03 2008

Ceticismo do Cientista

O ano é novo, este artigo é relativamente ‘antigo’ (março/2003) para os termos deste mundo virtual em que vivemos, mas o tema é tão interessante e instigante que resolvi postá-lo agora. E foi o primeiro post que referenciei em três seções (caterorias): Artigos e textos, Espaço ecumênico e Zuniversitas.

O ceticismo e a dúvida, sem eles ainda estaríamos nas cavernas.

Espero que gostem.

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Volta e meia, leitores me questionam sobre o que lhes parece ser o exagerado –– ou pouco razoável –– ceticismo do cientista. As abordagens variam. Algumas vezes, acham inconsistente um cientista se dizer ateu quando não pode responder a certas questões básicas, como, por exemplo, a origem do Universo ou da vida. Dizem eles: “Vocês falam do Big Bang, o evento que iniciou tudo. Mas de onde veio a energia que provocou esse evento? Como falar de algo material surgindo do nada, sem a ação de um ser imaterial, isto é, divino?” Outras críticas dizem respeito à descrença em fenômenos paranormais, sobrenaturais, OVNIs e seres extraterrestres, espiritismo etc.

Segundo estatísticas recentes feitas pela fundação Gallup nos Estados Unidos, em torno de 50% dos americanos acreditam em percepção extra-sensorial. Mais de 40% acreditam em possessões demoníacas e casas mal-assombradas, e em torno de 30% crêem em clarividência, fantasmas e astrologia. Não conheço estatísticas semelhantes para o Brasil, mas imagino que os números devam ser no mínimo comparáveis.

Sem a menor dúvida, a luta do cético é ingrata; ele estará sempre em minoria. Existem muito mais colunas sobre astrologia do que sobre astronomia ou ciência nos jornais e revistas do Brasil e do mundo. Mas, sem ceticismo, a sociedade estaria fadada a ser controlada por indivíduos oportunistas que se alimentam dessa necessidade muito humana de acreditar. Ela existe para todos não há dúvidas. Mesmo o cético deve acreditar no poder da razão para desvendar os muitos mistérios que existem. A paixão que o alimenta é a mesma do crente, mas direcionada em sentido oposto.

Devido a esse ceticismo, muitas vezes os cientistas (incluindo este que lhes escreve) são acusados de insensibilidade. De jeito nenhum. Eu tenho grande respeito pelos que acreditam. O que me é difícil aceitar é a exploração que existe em torno dessa necessidade, a exploração da fé. Na Índia, por exemplo, recentemente apareceram milhares de “homens-deuses”, que se dizem meio deuses, meio gente. No México, funcionários do governo freqüentam seminários sobre como usar o poder dos anjos. O Peru está cheio de psíquicos, enquanto na França são aromaterapeutas. Testes em laboratório visando verificar poderes extra-sensoriais invariavelmente falham.

[...]

Voltando à questão do Big Bang. A religião não deve existir para tapar os buracos da nossa ignorância. Isso a desmoraliza. É verdade, não podemos ainda explicar de forma satisfatória a origem do Universo. Existem inúmeras hipóteses, mas nenhuma muito convincente. Mesmo se tivéssemos uma explicação científica, sobraria uma outra questão: o que determinou o conjunto das leis físicas que regem este Universo? Por que não um outro? Existe aqui uma confusão sobre qual é a missão da ciência. Ela não se propõe responder a todas as questões que afligem o ser humano.

A ciência, ou melhor, a descrição científica da natureza, é uma linguagem criada pelos homens (e mulheres) para interpretar o cosmo em que vivemos. Ela não é absoluta, mas está sempre em transição, gradativamente aprimorada pela validação empírica obtida através de observações. A ciência é um processo de descoberta, cuja língua é universal e, ao menos em princípio, profundamente democrática: qualquer pessoa, com qualquer crença religiosa ou afiliação política, de diferentes classes sociais e culturas pode participar desse debate. (Claro, na prática a situação é mais complexa.)

Ela não terá jamais todas as respostas, pois nem sabemos todas as perguntas. O cético prefere viver com a dúvida a aceitar respostas que não podem ser comprovadas, que são aceitas apenas pela fé. Para ele, o não saber não gera insegurança, mas sim mais apetite pelo saber. Essa talvez seja a lição mais importante da ciência, nos ensinar a viver com a dúvida, a idolatrá-la. Pois, sem ela, o conhecimento não avança.

GLEISER, Marcelo. O ceticismo do cientista. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 mar. 2003. Suplemento MAIS!

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dez 23 2007

Uma “natalina” (from Rocha)

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“Não podemos deixar de agradecer também àquele que chegou em dezembro para nos salvar: O DÉCIMO TERCEIRO SALÁRIO”

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dez 14 2007

Hermanoteu na terra de Godah (made in Youtube, from Daniel Brandão)

Da companhia teatral “Os Melhores do Mundo”, imperdível !

[vodpod id=ExternalVideo.444791&w=425&h=350&fv=%26rel%3D0%26] from www.youtube.com posted with vodpod

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dez 06 2007

Pastor do ES prega que cada homem deve ter sete mulheres

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Provocando… 

“Baseado nas palavras da Bíblia, o pastor Justino Apolinário de Oliveira, 50, que atua em Vila Nova de Colares, no Espírito Santo, defende que cada homem possa ter sete mulheres.”

Para saber mais, acesse: http://noticias.uol.com.br/ultnot/2007/12/05/ult23u761.jhtm

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