Antes de mostrar que relação tem a “ESCOLA POPULAR NOVOS ALAGADOS”, a “BIBLIOTECA COMUNITÁRIA MARIA DAS NEVES PRADO” e o projeto “DE UM TUDO E + UM POUCO”, vou comentar a reportagem “Piores índices em educação”, que fez “aniversário” anteontem (27 de abril), mas que continua atualíssima.
O texto, assinado por Luciana Amorim e Fernanda Santa Rosa, saiu no A TARDE de Salvador, caderno “Salvador e região metropolitana” e resumidamente traz a Bahia como um dos piores Estados do país em termos de Educação Fundamental Básica – 1ª a 4ª Série/1º Grau (o terceiro pior, só ganhando do RN e do PI), Educação Fundamental – 5ª a 8ª Série/1º Grau (sexto pior) e Educação Média – 1º a 3º ano/2º Grau (sétimo pior). O índice usado foi o IDEB (Índice de Desenvolvimento de Educação Básica), divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, vinculado ao MEC, com sede em Salvador/BA.
As autoras entrevistaram a professora de ensino público Lindnoslen Guelnete, que enfatizou que os índices refletem a falta de prioridade à educação: “Nenhum governo realmente criou uma política pública adequada para o setor, que não é tratado como essencial”. Segundo ela, a lista de problemas inclui a falta de programas complementares que mantenham o estudante na escola e a baixa remuneração dos professores. Quanto ao Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), do governo federal, ela é categórica: “Não acredito em nada que venha de cima para baixo, só quem sabe educação é quem faz educação!”
Bem, apresentado o caos, já por demais conhecido por quem vive em Pindorama, vamos aos casos de sucesso, vejam que há algumas luzes no fim do túnel, por mais comprido que ele seja, mais gente se sensibiliza em iluminá-lo:
I - ESCOLA POPULAR NOVOS ALAGADOS

Vera Lazzaroto é uma professora que trocou um confortável apartamento no Rio de Janeiro por uma palafita em Alagados, periferia de Salvador/BA. Na bagagem o sonho de implantar a “Escola Popular Novos Alagados“, surgida numa palafita de 60 metros quadrados. Após 30 anos, são três escolas comunitárias, creche, duas bibliotecas, filarmônica, centro profissionalizante, banco comunitário e o Clube Erê, apoiados por verbas governamentais e doações. Quase duas mil pessoas beneficiadas diretamente, mais de 10 mil crianças e adolescentes já passaram por lá, o que fez o índice de analfabetismo despencar de 74% em 1974 para 0,8 % em 2004. Ela é Mestre em Educação pela UFBA, mas também Mestre em Poética, tinha que ser, pela UFRJ. Foi eleita pela UNESCO como representante da América Latina dos professores em situação de risco: “Meu desafio era descobrir nas crianças da favela as mesmas competências das outras crianças. E isso está provado”. Afora todos os links que aqui coloco para quem quiser viajar mais neste sonho, acrescento que ela criou e alfabetizou os dois filhos em Alagados. Certa feita, quando a filha teve que estudar em outra escola, ela perguntou: “Minha filha, quando você chegar lá na outra escola, e os coleguinhas perguntarem por que você mora em uma favela, o que você vai dizer ?”. A filha respondeu: “Porque minha mãe quer que todas as crianças tenham uma escola e uma casa boa”.
II - BIBLIOTECA COMUNITÁRIA MARIA DAS NEVES PRADO

Num pequeno povoado do sertão baiano de menos de mil habitantes, de nome São José do Paiaiá (é ou não é um caso de ’sincretismo sócio-religioso-luso-indígena” ? mistura de São José com o nome de uma tribo guerreira dos kiriris), município de Nova Soure, ergue-se a Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado, um pequeno prédio de dois andares, o único na cidade. A jornalista Liana Rocha, do A TARDE, fez alusão à Esfinge no deserto. De fato, há um quê de mitologia numa biblioteca como esta no meio do sertão, uma das maiores e melhores da Bahia, com, entre outras obras, a edição completa da obra de Moliere do século XVII, em Francês. Tudo obra do professor Geraldo Prado, historiador, mestre e PhD, filho da terra, apreciador de livros, que teve a idéia de alugar uma garagem em 2002 e enviar parte de seus livros do Rio de Janeiro, onde mora, no caminhão do conterrâneo Zé do Bode. Ali há outras preciosidades que não se encontram nem na biblioteca da UFBA, como a obra completa de João Cabral de Melo Neto, autografada, a primeira edição de “Casa-grande e Senzala”, de Gilberto Freire e a “Encyclopedia e diccionario internacional”, considerada por Antônio Cândido como a melhor da língua portuguesa. Conscientização da comunidade é um dos objetivos. Projeto com o BNB garantiu recursos. A Sala Verde, projeto com o Ministério do Meio Ambiente, enriqueceu o acervo sobre ecologia. E convênio com o Serpro vai permitir a inclusão digital através de conexões com a Internet. Nas palavras de seu criador: “Meu sonho é que o homem, o cidadão, mude para melhor.” (38% é a taxa de analfabetismo do município de Nova Soure).
III - DE TUDO E + UM POUCO
Este projeto (e livro) é uma iniciativa da “Oi Kabum! Escola de Arte de Tecnologia“ e vem a ser uma referência cultural das comunidades do Nordeste de Amaralina e do Subúrbio Ferroviário de Salvador/BA. Ligada á ONG “Cipó - Comunicação Interativa“, é um modelo de centro comunitário de multimídia, um espaço de formação pessoal, social, profissional e técnica de jovens por meio do seu envolvimento na produção de peças de comunicação em fotografia, vídeo, computação e design gráfico. Os materiais são utilizados para promover a mobilização e o desenvolvimento das comunidades. Neste livro se pode ler e ver as histórias, entre outros de Gilmar Brasil, Perinho Santana e ver os desenhos da “Melança da tinta de saco”, enriquecedores para qualquer um. Perinho Santana é o escritor-construtor-habitante da ‘casa-livro’, onde se lê poemas nas paredes, um deles:
“PLATAFORMA,
MINHA TERRA TEM PALMEIRAS
ONDE O TRÉM PASSA POR LÁ
DE FRENTE PARA A RIBERIA
HAVENDO DIVISA COM O MAR !”
Esta personagem-autor, homem simples, nos coloca uma grande lição quando diz que ficou 10 anos sem ver TV, só escrevendo poemas, porque ’só queria mostrar a realidade’… e aí eu me lembrei da professora e jornalista soteropolitana Malu Fontes quando disse em sua crônica de 13/04/2008: “A VIDA QUE SE DEIXA ENGOLIR PELA TELEVISÃO VIRA CIRCO“.
Há uma exposição com as fotos, a pesquisa em tipografia popular, os vídeos e os fotoclips em cartaz na Galeria Pierre Verger, na Biblioteca Central dos Barris, Salvador/BA, de segunda a sexta, das 9h às 21h, sábados, domingos e feriados, das 16h às 21h.


